
Adoraria ir ao teatro para assistir a essa peça!!!
... Fiquei imaginando as cenas em minha cabeça!
Parabéns!
| Como eu não queria ter feito isso |
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| Arte Teatro - Roteiros |
Escrito por: ViniciusMachado![]() |
Ter, 27 de Janeiro de 2009 09:06 |
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Personagens:
EU ELE Depois de ter você O cenário é um quarto bagunçado onde duas pessoas se entregaram ao prazer carnal. EU: (Deitada na cama, nua e coberta com o lençol enquanto ele na sua frente amarrando o sapato e quase pronto pra sair) Você gostou do meu cabelo? ELE: Huhum. (Pequena pausa) EU: É uma tintura nova, a minha cabeleireira disse que todas as atrizes da tevê estão usando. ELE: Huhum. (Pequena pausa) EU: Lembra da ultima vez que assistimos novela juntos? Você tava com o olho cheio de lagrimas e mesmo que não quisesse percebi de cara que tinha se emocionado. Foi tudo tão bom naquele dia, até hoje eu tento descobrir o que você colocou naquela pipoca, nem precisou de sal... (Na hora percebe que ele não esta dando a mínima para o que está ela falando). (Pequena pausa) EU: Você é um egocêntrico safado que nem liga pra mim? ELE: Huhum. EU: (Jogando o sapato na cabeça dele) ELE: Ai! Você ta doida? O que aconteceu contigo? EU: Nada não, eu apenas gosto de jogar sapatos na cabeça de um homem pelas costas. ELE: Engraçadinha. (Pequena pausa) EU: Você não vai me pedir desculpas? ELE: Por quê? EU: Sei lá, quem sabe foi o fato de eu estar tentando ter uma conversa com você depois de termos feito amor... ELE: Sexo! EU: Hum... Ta bom... SEXO, por que você não é capaz de ter uma simples conversa comigo? Ainda mais depois de eu ter te feito tudo o que você gosta. ELE: Temos que falar sobre isso agora? EU: Temos, na verdade eu tenho tentado ter uma conversa descente com você há meses, mas você nem da à mínima pra mim. ELE: Ai meu Deus do céu! EU: O "senhorito" sabe muito bem que tudo isso vai ser diferente depois que a gente conversar. ELE: Querida eu não estou com cabeça pra isso. EU: Interessante, você não tem cabeça para conversar comigo, mas há uma hora atrás tinha cabeça para gastar quantas camisinhas comigo? Três não foram? (pequena pausa) EU: Hein, responde amante de três minutos. ELE: (Olhando com uma cara de fim de conversa) Foi por causa disso que eu desisti de conversar a muito tempo. EU: Ejaculação precoce nunca impediu homem nenhum de falar. ELE: É você... (Pequena pausa) EU: Com certeza eu não sou a causa dos seus problemas. ELE: Mas também não é a solução. EU: Eu poderia ser, é só me dar uma oportunidade. ELE: Acho que você foi à única pessoa em toda essa cidade que ainda não percebeu, não existe essa oportunidade, existiu. (Pequena pausa) EU: Eu quero o divórcio. ELE: (choque) Como assim? EU: Como assim o que? Eu quero um divórcio, essa palavra é complicada demais pra você meu bem? ELE: Minha filha pode ter certeza que eu sei muito bem o que é um divórcio. EU: E qual é o problema? ELE: O problema é que você não tem autoridade pra me pedir uma coisa dessas. EU: (Levantando da cama e se enrolando no lençol) Mas com certeza poder pra isso eu tenho, ou por acaso tem alguma duvida? (Silêncio) EU: Que foi ta com medinho? Eu sei de todos os seus podres de bom moço, seu mascarado hipócrita e egocêntrico. Você acha que não, mas sei de todas as suas tramóias, já vi cada uma das suas putas, uma mais feia que a outra, a não ser aquela que faz ponto perto do Humaitá, aquela sim até eu pegava. (Silêncio) ELE: (Sentado na cama esfrega as mãos com ansiedade). EU: (Sentando na cama e abraçando ele de costas) Ai chuchu, não fica assim, você sabe que eu não ligo. ELE: Então por que, todos os dias continua jogando isso na minha cara? Por acaso já não basta todas as caraminholas que eu tenho que passar no trabalho no trânsito, com as crianças. (Pequena pausa) EU: (Vindo por trás abraçando ele) Ai chuchu... Não fica assim. (ficam se olhando por alguns instantes e com uma cara de idiota) PUDIM! ELE: (Ri brevemente) Você lembra não é? EU: Lembro, mas parece que você não lembra do mesmo jeito. ELE: O que quer dizer? EU: Sempre que eu falava "PUDIM" com cara de idiota você ria até mijar nas calças. ELE: Convenhamos que mijar nas calças é uma coisa que eu teria que administrar com muita cautela no serviço. EU: É verdade (Imitando o chefe). O senhor sabe que vem executando um bom trabalho e que seus saldos são bastante satisfatórios, mas não podemos admitir que você desequilibre o delicado equilíbrio da empresa com esse cheiro derivado de uréia, esta demitido (Rindo). ELE: (Ri brevemente) Parece o Donald Trump, você daria uma ótima imitadora. EU: Meu querido me conta uma novidade. ELE: Vou contar uma novidade pra você. Estou atrasado (Da um beijo no rosto dela, pega o casaco e vai seguindo em direção da porta), até amanhã minha linda. EU: (Segurando ele) Vai não lindo, fica mais um pouquinho comigo, preciso de colo. ELE: Você sabe que eu não posso, lembra da ultima vez que eu cheguei atrasado? Quase fui demitido, seria preferível eu chegar todo mijado. EU: (Insistindo mais) Fica amore. ELE: Não posso linda, mais tarde eu te ligo. EU: Fica, liga pro escritório e fala que ta doente. O Luis Renato pode te arrumar um atestado, você sabe que ele é médico. (Pequena pausa, ele se solta do abraço e fica zangado). ELE: Quantas vezes eu falei pra você não tocar no nome desse desgraçado de novo? EU: (Receosa) Desculpa você sabe que eu falei sem pensar... Afinal você sabe que eu sou tímida pra essas coisas e ele é o único médico que eu consigo pedir atestado falso. ELE: Não interessa, toma mais cuidado da próxima vez. Ouvir esse nome me deixa louco e você sabe disso. EU: Mas eu acho que o seu motivo é totalmente desnecessário, afinal ele não te fez nada. ELE: Fez sim, conheceu aquele cara e foi amigo dele, foi ai que a nossa amizade começou a desandar. EU: Meu querido, a cada minuto que eu escuto você reclamar do Luis Renato tenho a completa certeza de que estas apenas procurando sarna pra se coçar. ELE: E o que você vai dizer pra me convencer do contrario? (Imitando) "Não foi o Luis Renato que me comeu foi o amigo dele, o Luis Renato apenas apresentou a gente...". EU: (Irritada) A única pessoa culpada em toda essa história sou eu, para de querer colocar culpa nos outros, eu sou culpada e você já me perdoou. ELE: Interessante essa é a resposta que você sempre dá, me fala você ficou ensaiando pra cada vez que a gente começasse uma briga? EU: Seu filho de uma puta, quem sabe se você tivesse tido um pouco de decência e cumprido a sua obrigação de homem durante aquela semana quem sabe isso não teria acontecido? (Pequena pausa) EU: Qual é o seu problema? Gosta de me ver mal é isso? Por que se é isso mesmo então você me fala por que daí eu bato uma foto com a minha cara de desmoralizada e coloco na sua carteira pra você olhar. ELE: É isso? Então por que a gente continua com essa patifaria? Por acaso você tem medo de não ter outro homem que te ature? EU: (Explodindo) É por que eu te amo seu idiota. É cada vez que você me deixa aqui nessa cama sem gozar graças a sua ejaculação precoce eu te amo mais, mesmo sabendo que tinha que te odiar, mesmo sabendo que existem dezenas de homens maravilhosos lá fora e que adorariam me fazer mulher assim como o amigo do Luis Renato no banco de trás do carro dele. (Ele a derruba na cama com um tapa violento) EU: Então chegamos a esse ponto? ELE: Ficaria feliz se não tivéssemos ido a lugar nenhum. EU: Fala como se você fosse o correto. Você é o pior de todos os canalhas, seu verme nojento e asqueroso. ELE: O que vai fazer? Vai contar pra minha mulher? Vai contar pra ela que o hipócrita do seu marido fez de amante a ex-namorada que ele mais repudiou? Aquela que o traiu dois meses antes do casamento com um completo desconhecido, e que agora implora migalhas de amor de um homem descrente sobre qualquer mulher do mundo? EU: E que foi um monstro frio o bastante pra se vingar de todas as mulheres traindo uma moça que nunca fez nada de errado por você, que te ama e que atura todas as suas vontades de menino mimado. E tudo isso só por que uma mulher arrependida dos males que fez no passado quis se redimir com você, mas você só liga pro sexo de graça. (Pequena pausa) EU: Você não é melhor do que eu. ELE: Eu não quero ser melhor que você, esse nunca foi objetivo pra mim, como você disse eu só me aproveitei pra conseguir sexo de graça. EU: Eu devia começar a cobrar. ELE: Com certeza já posso até imaginar um drive truth de sexo. EU: Você seria o principal cliente com certeza, já é fan de fast food, com certeza ia aderir ao "fast foda". ELE: Pode abrir a sua franquia quem sabe assim eu apareço de novo na sua vida? EU: O que quer dizer com isso? ELE: (Indo em direção da porta) Embora. Já que te fiz sofrer tanto as causas de seus problemas vão sair pela porta e tudo volta ao normal, adeus. EU: (Com certo receio antes dele chegar na porta) Se você sair daqui nunca mais se atreva a aparecer na minha vida de novo. (Pequena pausa, ele vai embora). EU: Você não faz idéia de como eu queria que não fosses embora. EU: (Segue em direção a um armário aonde pega uma câmera filmadora e falando sozinha volta para a cama) Não sabe o quanto uma pequena tarde de amor pode ser perigosa... (abre a maquina e retira a fita admirando sua cartada final) Vamos ver o que uma família nobre e feliz pode se tornar depois de todas as gravações sórdidas dessa fita. Discussões juras de amor, momentos de felicidade... (pequena pausa, permanece olhando para a fita), muito prazer... Nostalgia dos tempos em que éramos felizes... (puxa o cesto de lixo metálico joga a fita e em seguida joga um fósforo e observa a fita sendo queimada sem nenhum arrependimento). Fim da Cena I Matando-me suavemente O cenário é um camarim de boate para onde o musico volta depois do show. ELE: (Entra no camarim carregando um violão e vibrando quanto ao ultimo show que foi realizado com sucesso após cantar uma nova musica) Caraça, eu achei que não era pra tanto, mas foi gente que musica boa eu tenho que ligar pro Marcelão (Pega o celular e liga para o amigo). ELE: Alô, fala seu monstro safado... Hahaha... Nem te conto meu querido, foi um espetáculo... Te juro véio nunca pensei que a mulherada ia ficar desse jeito, me arrancaram até pedaço de cabelo acho que vou precisar de implante... Meu Deus do céu... E você lembra o que eu tinha te falado dessa musica? Vai tomar banho rapaz é claro que tu lembra... Larga a mão de ser cínico, eu te disse que achei a musica uma bosta, mas você insistiu e disse que era uma boa e... (A conversa é interrompida com um barulho vindo de fora). ELE: Espera um minuto ta acontecendo alguma coisa fora do camarim depois eu te ligo. (Desliga o telefone e se aproxima da porta tentando escutar o que se passa e se torna mais forte a voz de uma mulher ao fundo totalmente escandalosa, sentindo que a porta esta prestes a ser derrubada se afasta vendo que a voz se torna mais alta e que a entrada dela será inevitável). (Entra formosíssima no camarim com um esfregão na mão e continua a sua explanação contra aqueles que a tentaram impedir de entrar enquanto ele se esconde atrás da cadeira onde ficou inicialmente sentado) EU: (Ameaçando qualquer pessoa que possa entrar como esfregão em sua mão)... E não interessa o quanto você diga que eu estou descontrolada e que eu preciso de um calmante, você não é meu psiquiatra, e ai dele se disser que eu preciso de um calmante também por que eu vou fazer com ele muito mais. (Na fúria joga o esfregão pra fora e bate a porta trancando-a em seguida). Ta na hora da gente acertar contas seu cantorzinho de merda, anda logo aparece. ELE: (Sai de trás da cadeira levantando o violão para usá-lo como defesa caso fosse agredido) Para trás sua louca desvairada ou... EU: Ou o que? Você vai me matar com o seu violão de sete cordas? (saca um revolver) Acho que isso equilibra um pouco as coisas não é? (Pequena pausa) ELE: (Deixa o violão cair pateticamente mantendo uma expressão em seu rosto que diz: me borrei todo.) Moça se acalme, por favor, eu não sei quem é você e nem o que eu fiz de errado então vamos conversar calmamente como duas pessoas civilizadas... EU: (Explodindo) Você está querendo dizer que eu não sou calma? ELE: Não... Quer dizer... É que a senhora invadiu... EU: Senhora não, senhorita. Já não basta ter falado que eu não sou calma e perfeitamente controlada? ELE: Perdão, mas se tem uma coisa que o meu pai sempre me ensinou é que é preferível pecar pelo excesso. EU: Não interessa o que o seu pai ensinou ou deixou de ensinar, termine de limpar a primeira merda que o senhor fez. ELE: Ok! É que parecia que a SENHORITA, que é VOCÊ, entrou no MEU camarim e me aponta uma arma. O que a SENHORITA achou que eu ia pensar? EU: Pensasse duas vezes antes de me fazer o que fez. ELE: (Desespero patético) Mas o que eu fiz criatura? EU: Cantou. ELE: (Com cara de obvio) Cantei? EU: É cantou? ELE: Filha, você já ouviu falar de uma pequena regra na nossa sociedade chamada "eu preciso comer"? EU: Não estou falando do fato de você cantar sua mula, se fosse assim eu já teria matado Zé Ramalho e Engenheiro do Hawaii. Eu to falando do que você cantou. ELE: Ta bom você não gostou do meu repertório tudo bem a gente chega num acordo, se quiser eu começo a cantar Marisa Monte, ou Callypso... EU: Callypso nem pensar, não me xinga. Alias não foi o seu repertório foi uma musica em si. ELE: Ótimo, encontramos o foco do problema, qual foi essa musica? EU: A última. ELE: Mas ela foi a melhor de todas. EU: Você não tinha o direito de cantá-la. ELE: Mas como assim? Essa musica é inédita, o que você tem contra ela? EU: Essa musica é a minha vida. (pausa) ELE: Me explica direito essa história. EU: (Levando mais próximo a arma ao rosto dele) Quem tem que explicar alguma coisa aqui é você seu fanfarrão. Como ficou sabendo de tudo isso? Quem te contou detalhes da minha vida? ELE: (Se cagando de medo) Se a senhorita me contasse com mais calma quem sabe eu poderia te ajudar? EU: (Se afastando sem dar as costas para ele) Eu ouvi dizer que você fazia um bom som e que tinha um bom estilo, então eu vim vê-lo e ouvi-lo por um momento, e lá estava você, um jovem rapaz, um estranho aos meus olhos dedilhando a MINHA dor com os seus dedos e cantando a MINHA vida com as suas palavras, matando-me suavemente com a sua canção e com as suas palavras, através dos seus versos e da sua voz. Eu fiquei toda vermelha com vergonha do público, parecia que você tinha encontrado todas as minhas cartas e que estava lendo uma por uma em voz alta, e eu rezei pedindo para que você parasse, mas você apenas continuou. Você cantava como se me conhecesse no meu mais profundo desespero, então VOCÊ olhou através de mim como se EU NÃO ESTIVESSE LÁ, e continuou cantando cada vez mais alto e mais claro, e continuou persistindo e persistindo até sair aplaudido por todos menos por mim. COMO VOCÊ OUSOU CANTAR ISSO? COMO? ELE: (Pegando papel e caneta) Da pra repetir? EU: Como assim? ELE: Eu achei lindo, queria escrever isso! Da pra repetir foi maravilhoso. EU: (Apontando a arma novamente, só que agora para a virilha dele) Não abusa da sorte rapaz. ELE: (Automaticamente largando papel e caneta) Ta bom. (Pequena pausa, ambos se afastam, ela senta no chão do camarim e seus olhos se enchem de lagrimas, calmamente ele se aproxima e leva a mão ao seu ombro). ELE: Moça. EU: Hum... (Silêncio constrangedor ele se senta ao lado dela e puxa papo novamente) ELE: Quer dizer que você é a moça da musica? EU: Sou. ELE: Então todas as coisas que a moça da musica faz você já fez? EU: Tudo isso e um pouco mais. ELE: Desculpe-me, mas você é muito exagerada. EU: Você acha que é exagero colocar um outdoor em frente ao prédio dele pra lembrar que faríamos nosso primeiro aniversário de namoro em duas semanas e que ele não devia esquecer que tinha me prometido um jantar surpresa? ELE: Bem acho um direito seu querer algo especial, mas não é demais exigir uma surpresa sendo que você não devia saber da existência dela? EU: Pensasse duas vezes antes de ter me dado à senha do e-mail senão não teria visto a mensagem da minha cunhada falando que a idéia de me levar pra jantar era maravilhosa. ELE: Sabia que o dinheiro que você gastou nesse outdoor poderia ter sido usado para bancar um jantar e quem sabe um quarto de motel? EU: A questão não é o quanto eu gastei, mas sim ele saber que eu gastei pra poder lembrar que ele tinha que gastar comigo. ELE: (Ironicamente) Não consigo imaginar quem não faria isso. EU: O pior é que não bastou às noites em claro esperando ele sair pra trabalhar só pra fazer uma surpresa matutina, nem mesmo as 17 samambaias amazônicas na mesa do escritório dele e nem mesmo a cueca com 39 corações bordados que eu fiz com tanto amor e carinho pra ele, cada coraçãozinho tinha um dos apelidinhos que eu tinha dado pra ele. ELE: Mas até eu tenho uma cueca de coração, ta certo que não tinha apelidinhos, mas ninguém vê a cueca que você usa. EU: Eu dei pra ele de amigo secreto numa reunião de família dele, não consegui entender o porquê dos primos rirem tanto. ELE: Não faço a mínima idéia do por que. Me diz uma coisa, que tipo de apelidinhos estavam escritos na cueca? EU: Os mais lindos de todos. ELE: Diz alguns. EU: (Enquanto fala ele segura o riso) Ai tinha vários, "chuchu" por que é clássico chamar namorado de chuchu, "trufinha" por que por fora era enigmático, mas por dentro era docinho, "pitucho", "pudinzinho", "tesouro", "jóia", "toso" que era abreviação de gostoso, "catinho" por que eu adoro trocar o "G" pelo "C", "pedaço" de pedaço de mau caminho, "moleco" que é amoreco sem o "A" e trocando o "R" pelo "L", "babado" por que ele não sabia beijar e eu ficava toda babada, não to lembrada do resto, mas o melhor de todos era "cachorrão". ELE: Posso imaginar o por que. EU: Perdeu a noção do perigo é? Não dessas coisas que você ta pensando, tem uma razão mais profunda. ELE: Vamos concordar que foi um pouco promiscuo, mas me fala por que do apelido? EU: Por que ele era o cachorro e eu era o carrapato que não largava dele. ELE: (Segurando o riso e começando uma ironia inocente) Você é adepta do carrapatismo? Eu também sou. EU: (Entrando na brincadeira da ironia) Gente que mundo pequeno, ta cada vez mais difícil de encontrar um carrapato por ai, foi bom encontrar outro como eu. O carrapatismo está quase extinto. (Os dois permanecem rindo levemente por alguns instantes) EU: Queria que ele tivesse grudado um pouco em mim de vez em quando, a sua namorada deve ter muita sorte de ter seu carrapatinho. ELE: Eu não posso ter namorada, não sei ser fiel. EU: Pelo menos você é sincero. Eu preferiria que ele tivesse dito assim: "To terminando com você por que quero transar com a minha velha paixão de colégio". Eu entenderia, mas ele preferiu dizer que ia passar a noite estudando na biblioteca da faculdade, e quando eu cheguei na casa dele pra enfeitar o quarto com dezenas de bexigas de coração, e eu pego ele na cama com a dita cuja. (Pequena pausa constrangedora) ELE: Olha... Se tem uma pessoa que nunca devia dar conselhos sou eu, mas se me permite dizer uma coisa eu acho que não existem pessoas que mereçam nossas lágrimas, mas com certeza existem aquelas que não merecem nossas lágrimas. EU: Não entendi. ELE: Pensa comigo, se uma pessoa nos faz feliz por que vamos sofrer por ela, essa pessoa não nos dá motivo para sofrer, e se ela não nos faz feliz por que vamos sofrer a incapacidade do mesmo de nos fazer bem? EU: De uma forma mais complicada você está dizendo que não precisamos chorar por ninguém? ELE: É mais ou menos isso, eu é que gosto de complicar as coisas, mas se isso fosse verdade então pelo que a gente ia chorar? EU: Prefiro chorar por bater o meu dedinho do pé no canto da mesa. ELE: Concordo totalmente, por isso vale a pena chorar. (Pequena pausa) EU: (Se levantando) Olha... Me desculpa, não queria culpar você por uma coisa que eu não soube aceitar. ELE: (Se levantando) Você é humana, é de natureza humana passar por momentos assim. EU: (Mostrando a arma) E quanto a isso... ELE: (Pula pra trás) AH! Ta louca, tira isso de perto de mim. EU: É de brinquedo seu cagão. ELE: Hum! Parece tão real. EU: Nada é o que parece ser ta achando que isso aqui é silicone? (Pegando nos peitos) ELE: Nem parei pra pensar nisso, mas agora que falou, benza Deus, que saúde. (Os dois riem brevemente) EU: Obrigado, me deu uma vontade nova de re-começar. ELE: De nada. (Pequena pausa), me diz uma coisa. Foi você mesmo a moça que após ter planejado o aniversario dele ficou sabendo vinte minutos antes que ele ia viajar com a família e te deixou esperando a noite toda com o jantar no forno e uma garrafa de vinho gelando em um balde? EU: Foi... Esse dia foi horrível, nunca chorei tanto. ELE: Posso não ser perfeito... Mas sei que jamais faria isso com uma pessoa tão atenciosa como você. O que você sentia por ele era amor verdadeiro, por mais que tenha sido um tanto exagerado, era amor verdadeiro. EU: (Corre em direção a ele, rouba um beijo e antes de sair pela porta agradece) Obrigada. (Vai até a porta para ter certeza que ela foi embora, quando confirma a certeza tranca a porta, pega o telefone e aperta a rediscagem) ELE: (Vai até a porta para ter certeza que ela foi embora, quando confirma a certeza tranca a porta, pega o telefone e aperta a rediscagem) Oi chuchu... Trufinha... Pitucho... Pudinzinho... Tesouro... Jóia... Toso... Catinho... Pedaço... Moleco... Babado... (da uma gargalhada) Que foi? É safado descobri todos os seus apelidinhos... É... Mas o melhor de todos é cachorrão... É... É exatamente pra isso que eu liguei pra ti, se você fizer mais uma musica usando os dramas reais das mulheres que passaram pelas suas mãos eu acabo com a sua raça, você não vai escrever pra mais ninguém nessa cidade Marcelão... Meu filho você não tem noção ela apareceu aqui com uma arma de brinquedo e eu me borrei todo... (continua falando enquanto a luz vai caindo e o som também). Fim da Cena II Nº Três O cenário é uma sala de aula onde os alunos estão fazendo uma prova. EU: (olhando para a sua prova, para o colega do lado, para toda a sala e acompanhando os passos da professora esperando o momento certo para pedir uma cola ao colega da direita) Me passa a resposta número 3. (Pequena pausa) EU: Me passa a resposta da número três. (ignorada mais uma vez, enrola a prova e à usa para cutucar o colega) ELE: Ai ta doida? EU: Xiii!!! ELE: Xii o que? O que você quer? EU: Me passa a resposta da número três. ELE: É uma questão fácil por que não respondeu ainda? EU: Por que eu não estudei. ELE: Se tivesse estudado não precisaria me pedir cola. EU: Me desculpa estava concentrada demais pensando em você ontem à noite pra estudar. ELE: A ironia não combina com você. EU: Faz parte do meu show. (Pequena pausa) EU: Me passa a resposta da número três. ELE: Não, é fácil você pode responder sozinha. EU: E você já respondeu? ELE: Ainda não? EU: Por que não? ELE: Não te interessa. EU: Eu só acho estranho, se é uma questão tão fácil assim por que você ainda não respondeu? ELE: Cuida da sua vida e me deixa em paz. EU: A sua presença não me deixa em paz. ELE: Então para de me perguntar à resposta da número três, não da pra te passar uma resposta de uma questão que eu ainda não respondi. (Pequena pausa) EU: Me passa a resposta da número dois? ELE: Não. EU: E a resposta da número um? ELE: Não. EU: E a número quatro? ELE: Se eu não fiz a número três por que eu teria feito a número quatro? EU: Sei lá pensei que você estivesse respondendo aleatoriamente ou de traz pra frente. ELE: Mas eu não estou, para de me pedir respostas. EU: Nem da número cinco, seis, sete, oito, nove ou dez? ELE: Não, não, não, não, não, e não. EU: Então que tipo de prova fácil é essa que ainda não foi respondida. ELE: A minha. EU: O loco hein, ta pior que eu. ELE: To sim, obrigado. (pequena pausa) EU: Se você ainda não respondeu nenhuma questão, o que tem escrito ai? ELE: O que quer dizer com isso? EU: Desde que essa prova começou você não parou de escrever, se você respondeu nenhuma questão parece existir algo mais importante do que a prova pra te fazer escrever tanto. ELE: É tudo coisa da sua cabeça, não tem nada a ver. EU: Se a carapuça serviu. ELE: E se eu estiver mesmo fazendo outra coisa fora a prova ela não é da sua conta. EU: Se não é da minha conta então existe alguma coisa para que ela não seja da minha conta. ELE: (coloca a mão no rosto e respira fundo) Você começou, agora eu vou terminar. Eu não estou fazendo outra coisa além da prova e se eu por algum motivo estivesse fazendo outra coisa ela não é da sua conta. Entendeu? EU: Entendi. ELE: Posso voltar a fazer esta prova? EU: Pode. ELE: Obrigado. EU: De nada. (pequena pausa) EU: Você ainda não respondeu a número três? ELE: Eu to achando que é uma boa idéia colocar um letreiro enorme atrás de mim dizendo: "Eu não respondi a número três". O que você acha? EU: Quer dizer que você não fez nada nesse rascunho. ELE: Que rascunho? Eu não uso rascunho, é perda de tempo. EU: Então com o que você ta perdendo tempo? Por que a tua prova ta em branco e só tem 30 minutos pra terminar. ELE: Muito interessante justamente agora você estar tão preocupada com as minhas notas, pelo o que eu me lembre a senhorita sempre cagou para o meu desempenho escolar. EU: Nunca precisei, você sempre deixava de passar até quinze minutinhos a mais comigo só pra poder estudar trigonometria. ELE: Primeiro, não estava fazendo nada além do que a minha obrigação e segundo, se você não pensasse sempre em namorar um pouco mais não estaria me pedindo cola. EU: Diferente de você eu tenho os meus ideais. Eu quero poder um relacionamento legal com o homem que eu amo... (momento de silencio, ambos se olham)... Ou que eu venha a amar. ELE: Isso é fácil, você pode conseguir até debaixo da ponte, eu por outro lado quero poder dar uma vida boa para a mulher que eu amo... (o mesmo momento de silencio, ambos se olham) ... Você sabe não é? O mesmo que você disse agora a pouco. EU: Ou que eu venha a amar? ELE: Exato. EU: Ta bom. (pequena pausa) EU: Quem é a cachorra? ELE: Que cachorra? EU: A cachorra com quem você está saindo. ELE: Eu não to saindo com ninguém. EU: Ta saindo sim, você acha que eu não sei? ELE: E se eu estiver saindo com alguém? Isso é da sua conta? Não! EU: Está sim, nem preciso ir mais a fundo. ELE: O que quer dizer com isso? EU: Eu só joguei verde, se alguma coisa não é da minha conta ela existe, só continuei enrolando e você assumiu a culpa no cartório. ELE: (fingindo que está orando) Ó Deus dai-me paciência, por que se o senhor me der forças eu acabo batendo em alguém aqui hoje. EU: Essa sua mania de dizer que a sua vida não é da minha conta saiu pela culatra. ELE: É exatamente nesse ponto que eu queria chegar, por que a minha vida não é MESMO da sua conta, não é mania, não é nóia e nem é paranóia, minha vida é MINHA, não é SUA. EU: Sua vida é da minha conta sim, principalmente depois do momento que nossas vidas se tornaram uma só. ELE: Nós terminamos, nossas vidas foram divididas novamente. EU: Eu não sei quanto a sua, mas a minha não voltou do mesmo jeito. ELE: (pequena pausa, volta a escrever) Depois a gente conversa. (pausa longa) EU: (tentando não ficar mais impaciente, mas é em vão) Quem é aquela tal de "any any"? ELE: Quem? EU: Aquela garota com quem você conversa via depoimentos no Orkut. ELE: Você ta entrando no meu Orkut? EU: E pensar que você está usando o meu jeitinho carinhoso de falar como eu, eu usava isso com você e agora você repete com outra. ELE: Espera aí, pênalti, Você esta entrando no meu Orkut. EU: Eu sabia que ela tava dando em cima de você. ELE: Espera aí, pênalti de novo, não desvia o assunto não. Você tem entrado no meu Orkut com a minha senha. EU: Meu querido, se quer privacidade não tenha um Orkut, além do mais, não queria que eu entrasse mudasse a senha. ELE: Eu te dei a senha por que nós estávamos namorando naquela época, eu esperava que você tivesse bom senso e respeitasse o meu espaço. EU: Isso não muda o fato de ter uma outra baranga dando em cima de você. ELE: Por que não suporta a concorrência? Não é baranga o suficiente? EU: (gritando e chamando a atenção de todos na sala) Me fala o nome dela e eu te passo a resposta da número três. ELE: (cooperando com o escândalo) Pensei que você não tinha respondido essa. EU: Pra saber o nome dessa cadela sarnenta eu respondi qualquer questão, inclusive as que a professora não selecionou. (Percebem que a professora está de mau humor e pronta para dar uma bronca) ELE: (permanecendo de pé) A da licença viu, professora posso ir ao banheiro por favor? EU: (se sentando) Está fugindo é? ELE: Não, é que me deu vontade de vomitar. EU: (Uma pequena pausa, olha para a própria prova, olha para a carteira ao lado, observa todos ao redor, desde a professora até os alunos sentados no fundo da sala só esperando um bom momento para ler o papel deixado na cadeira ao lado, o momento surge porem lê apenas as duas primeiras palavras) Querida Mariany... (permanece pasma ao ponto de não tentar ler o resto, outra pequena pausa). ELE: (voltando do banheiro) Olha... Eu preciso conversar uma coisa muito séria contigo depois da aula... A gente pode ir até a sua casa e bater um papo. O que você acha? EU: Pode sim. ELE: (expressão de alivio) Que bom, legal. EU: Mas você precisa me dizer uma coisa antes. ELE: A resposta da número Três? EU: Não é não... É outra coisa... Diga pra Mariany Navarro que hoje você não é dela e que está indo pra casa da sua ex-namorada. ELE: (frio na barriga) Espera um pouco... Como você sabe que é ela? EU: Não é da sua conta, só faz o que eu to te pedindo ta? ELE: Olha... Não precisa. EU: (começando um novo escândalo) Precisa sim, não vou ser a segunda na vida de ninguém, não sou sobras e nem mulher de ficar me humilhando por alguém que só me fez mal. ELE: Se acalma, por favor, você não sabe o que está falando... EU: Eu sei muito bem o que estou falando, eu só não sei o que eu estava fazendo quando desperdicei todos aqueles beijos com a sua boca, quando eu me neguei para poder dar pra você o carinho que eu sempre precisei receber do homem que eu amo. ELE: Calma linda, não chora, você esta falando como se eu nunca tivesse te amado. EU: Eu tenho certeza. VOCÊ NUNCA ME AMOU! ELE: Ora sua... (a cena congela - olá desculpe a interrupção, eu sei que no teatro é difícil evitar a entrada de crianças e de pessoas que achem grosseria o uso de palavrões em alguns espetáculos, e como autor conheço bem esse fato e vou dizendo previamente que nessa discussão vai rolar baixaria, por isso enquanto o desenrolar da cena continua as vozes dos atores serão abafadas pela 9ª sinfonia de Bethoven). (Ambos realizam uma grande bagunça, escândalos, se ofendendo e se humilhando até o ponto que um tapa é dado). ELE: (após receber o tapa, entrega o que estava escrevendo) Toma aqui, você não queria ler? Não queria saber o que eu estava escrevendo? Pois então lê, leia, mas eu quero que leia com vontade e muita atenção, porque o que está escrito aqui nessa carta eu não irei fazer mais, nunca mais. (senta-se) ELE: (em OFF simbolizando a leitura da carta) Já faz algum tempo que eu estou sozinho, e nunca imaginei que uma menina tão bonita e tão especial como você poderia se interessar por mim, mas você apareceu e me fez ver que era possível. Não sei se fiz certo ou não naquela hora que você tentou me beijar na piscina do clube, tenho pensado muito em nós dois e posso afirmar que combinamos bastante, não consigo imaginar um homem sendo infeliz ao seu lado. Mas não consigo parar de pensar em tudo o que passei com a minha ex-namorada, você sabe quem ela é, ela senta do meu lado na sala de aula, no começo do ano eu pedi pra nossas carteiras ficassem ao lado uma da outra, mas a gente terminou e eu não consegui mudar nossos lugares. Quase não nos falamos e quando acontece só da encrenca, porém mesmo sabendo que não me dou bem com ela do mesmo jeito que com você meu coração ainda é dela, é ela quem eu amo. Foi por isso que não te beijei, é por isso que não consigo dormir a noite, por causa da culpa de trair os sentimentos que sinto por ela. Estou muito lisonjeado pelo carinho com o qual me tratou e como me fez sentir querido. Obrigado por tudo, mas meu coração já tem dona. OXOX P.S.: Estou tão ligado a ela que termino minhas cartas do mesmo jeito com o qual ela escrevia pra mim, colocando X no lugar de abraços e O no lugar de beijos, acho que finalmente encontrei meu par. (pequena pausa) ELE: A resposta da número três é raiz quadrada de cento e quarenta e quatro negativo (√-144). EU: Obrigada. Fim da Cena III Vinho Quente EU: (Arruma a sala colocando almofadas grandes no chão, posicionando o abajur, separando duas taças e colocando um vinho para gelar no balde sobre a mesinha da sala. Após tudo arrumado tira um pequeno frasco do bolso esquerdo que durante um minuto permanece olhando fixamente até que a campainha toca) Já vou (Põe a mão na maçaneta, respira fundo, abre a porta) ELE: (Entra com uma sacola de mercado na mão) Olá. EU: Posso adivinhar? ELE: Adivinhar o que? EU: O que tem na sacola. ELE: Você é quem sabe, mas tem que adivinhar o que é e de que tipo é. EU: Hum... Queijo? ELE: Ok acertou, de que tipo? EU: Hum... Prato? ELE: Não, é temperado. EU: Entra fica a vontade (Em seguida abre a garrafa de vinho e ser vê as taças) ELE: (Senta em uma almofada no chão em frente à mesinha da sala aonde deixa o aparelho de celular) Que vinho é esse (Sentindo o buquê). EU: É um vinho português se chama Cavalo Branco. ELE: Nome de Wisk. EU: Se eu escolhesse um nome de vinho seria bem diferente. ELE: É mesmo e como chamaria esse vinho? EU: Pode ter certeza tenho apreciado bem mais um buquê delicado e um sabor amadeirado do que me preocupado com um nome que nem sei como surgiu. ELE: Desde quando você se tornou admiradora de vinhos finos? EU: E desde quando você se tornou especialista furado? ELE: Como assim? EU: Esse vinho não é fino, é bastante saboroso, mas é um vinho barato comparado com o que vendem na Europa, só achei que você iria gostar. ELE: Por quê? Sou medíocre demais pra tomar algo melhor? EU: Você sabe que ironia comigo é rebatida com ironia, então se for começar se prepara pra receber, isso foi só um aviso. ELE: Bem... Às vezes é melhor saber dos limites que podemos atingir. EU: Você sempre gostou de extrapolar limites. ELE: Não existem limites para o que eu posso fazer. EU: (olhando fixamente por um instante) Eu concordo. ELE: O que quer dizer com isso? EU: Com o que? ELE: Com esse: "Eu concordo". EU: Nada, só concordei com você, por quê? Pareceu outra coisa? ELE: Sim pareceu. EU: O que pareceu? ELE: Me diz você o que pareceu. EU: Não me diz você, eu perguntei primeiro. ELE: Você sabe muito bem o que pareceu. EU: Não meu querido eu não sei o que parece. Nem faço idéia do que parece esse negócio do parece ser. ELE: O que? EU: Eu só concordei com o que você disse, por que você continua na defensiva? Me fala o que eu ganharia com todo esse circo? Por que se eu quisesse uma encrenca eu nem precisava chamar você pra vir aqui em casa, eu simplesmente teria ido pra casa da minha mãe e misturado às roupas brancas com as coloridas ou deixar o saco de lixo na frente da saída do carro do vizinho. (Pausa breve) ELE: Gostei do que fez com os móveis da sala, deu um novo astral. EU: Que bom, eu também amei e nem acreditei que foi tão fácil e tão barato. ELE: Eu to pensando seriamente em abrir a minha oficina no Mato Grosso. EU: Você vai embora? ELE: Ainda não decidi, é um empreendimento complicado e tem que se pensar muito, tem um investimento muito grande fora as despesas básicas, mas estou muito esperançoso, um casal de amigos meus está morando no Piauí, abriram uma farmácia, embora não estejam se adaptando muito bem ao lugar o dinheiro está entrando, assim eles podem viajar bastante. EU: O Ricardo me disse uma coisa parecida, ele disse que queria ir pro Amazonas abrir a loja de materiais de construção, com certeza isso não vai dar certo. ELE: Eu nem falo nada, mas se ele quiser ir que vá. EU: Como você pode falar assim? ELE: Assim como? EU: É que me surpreende você sabe que o seu irmão está falando uma grande besteira, sabe que ele pode levar essa idéia pra frente e não fala nada. Não se preocupa com ele? ELE: O Ricardo é meu irmão, sinto muito apreço por ele, mas ele é bem grandinho e não vou ser eu que vou dizer o que ele deve fazer. EU: Você quer queijo? ELE: Quero. EU: (Pegando uma tabua e uma faca que estavam em baixo da mesinha de centro) Já comeu esse queijo alguma vez? ELE: Não, o rapaz do mercado falou que era bom, mas ele não tinha cara de ser um conhecedor de queijos finos, acho que é assim como eu. (Os dois riem, breve pausa). EU: Eu te vi sexta-feira num barzinho do centro. ELE: Qual? Aquele que serve espetinho perto daquele barzinho de sinuca. EU: Esse mesmo, estava tocando pagode cafajeste naquele dia. ELE: Pagode cafajeste? Como é o pagode cafajeste? Eu não conheço. EU: (Se anima e se levanta pra mostrar como é) Todo mundo já viu como funciona o pagode cafajeste ele é composto de um idiota que usa óculos escuros que fica cantando na frente de outra meia dúzia de idiotas também com óculos escuros, mas esses seis idiotas que sobram ficam dançando assim parecendo tiozão (Imita os pacinhos, ambos riem, cai em cima do colo dele, os dois ainda rindo)... e sempre tem letras de dor de corno... (Breve momento de silencio, e o clima começa a se formar). EU: Eu vi aquela japonesa na mesa com você. (Afastando o corpo) ELE: E? EU: E... Não tem nada pra me dizer sobre o assunto? ELE: O que eu poderia dizer? E além do mais o que eu teria que dizer? EU: Não sei, será que eu não mereço um pouco de respeito? ELE: Que respeito? Você não é o tipo de pessoa que se julgue respeitável. EU: Posso saber por quê? ELE: Querida... EU: Não sou sua querida. ELE: De fato esse momento só mostra que além de não ser querida não é nada e não merece o mínimo de consideração. EU: Como você se atreve a dizer isso pra mim? Mesmo depois de ser o pior de todos os homens que já passaram na minha vida consegue me machucar mesmo quando eu tento te agradar, você é um grande verme cheio de pus... (Se cala após receber um tapa violento) ELE: Me escuta agora e escuta bem por que é a primeira e a ultima vez que essas palavras vão sair da minha boca, e espero que a sua existência patética se contente. Nós tivemos um caso que durou um mês, foi legal enquanto durou, mas você sempre soube, assim como eu, que isso não ia durar mais um segundo. EU: Nem parece que você foi capaz de namorar a Clarice por seis anos. ELE: Como se ela tivesse sido grande coisa pra mim, acha que eu nunca traí ela? Que nunca abandonei ela pra comer a primeira loira que aparecia pela frente? Nunca nenhum homem vai ser fiel e você tem que aceitar isso, por que quando a senhorita estiver casada com o seu futuro "bom moço" que é respeitado na sociedade e que vai te fazer uma dondoca pomposa, pode ter certeza, cada beijinho dado na sua boca são dois na boca de outra. EU: Você me dá nojo. ELE: Eu te dou nojo, quem me dá nojo é você que ainda permanece tentando investir numa coisa que não tem futuro pra nenhum de nos dois. EU: (Se debulhando em lágrimas e partindo pra cima com socos desajeitados) Então por que não teve a mínima decência de terminar comigo no dia seguinte a nossa primeira noite, por que não teve a capacidade de me dizer que só me queria por uma noite, por que me fez de capacho do seu bel prazer? Seu canalha, seu monstro, você não vale nem um pedaço da lesma que come os fungos da merda do cavalo (Se entregando totalmente a tristeza e ao desespero ajoelhando no chão), maldito, safado, miserável... ELE: (Batendo palmas) Parabéns, mais uma vez não conseguiu se humilhar desnecessariamente, devia ganhar um premio. (Nesse momento o celular toca) Alô, oi gatinha como vai? EU: É a cadela da vez? Trás ela aqui pra fazermos um ménage a troai. ELE: (Fazendo gesto de silêncio) Nada não linda, estava recebendo a visita de um amigo. EU: Passa pra ela o meu telefone quem sabe eu e outras garotas montamos um grupo de apoio. ELE: Hã? O que você ouviu linda? Não, não tem ninguém aqui comigo, você sabe que só tenho olhos pra você. EU: É incrível como você consegue usar as mesmas falas, da pra ver de cara, ela vai virar mais uma das suas conquistas. ELE: Claro, daqui a pouco vou sair daqui e te ligo pra fazermos alguma coisa, beijo gatinha se cuida. (Desliga o telefone) Bem acho melhor ir embora preciso tomar um banho pra tirar o seu cheiro. EU: Quem disse que você vai embora? ELE: Eu disse. EU: E eu digo que você não vai embora, incrivelmente fui capaz de refletir bastante no período que você passou falando com aquela biscate, e percebi que não importa com quem você esteja nenhuma mulher será capaz de fazer o que eu faço, e já que você está aqui comigo eu vou me aproveitar de cada centímetro do seu corpo que eu aprendi a desejar. ELE: O que quer com isso? EU: Não quero nada, só quero tomar um gostoso vinho tinto com você. ELE: Depois de toda essa ceninha está achando que eu tomaria vinho contigo? Nem mesmo tomaria suco de laranja com uma pessoa assim. EU: Você sabe que eu sou sua, não interessa quanto tempo vai demorar pra poder me usar de novo, mas eu espero, eu só te imploro tome uma ultima taça de vinho comigo antes de ir atrás da vadia da vez. ELE: Ok, eu espero. EU: (Vai até a cozinha e volta com duas taças) Pode ter certeza, um gole desse vinho é inesquecível. ELE: (Toma um gole) É estranho, você não pos ele pra gelar? EU: Pus, mas esse vinho tem uma propriedade única, e provoca uma sensação de calor quando vai descendo a garganta. Posso dizer que esse é o tipo de vinho que eu adoraria dar um nome. ELE: Antes que eu me esqueça tem uma coisa que eu preciso te dizer: eu nunca estive aqui. EU: Não se preocupe. (B.O.) EU: (Quando a luz se ascende, está abraçada ao corpo sem vida, morto por envenenamento). Sim você esteve aqui, com certeza esteve, não interessa o quanto digam o contrario, você esteve aqui sim... To pensando em chamar esse vinho de Doce Vingança, ou Avassalador ou até quem sabe Vinho Quente, o que você acha querido? Fim da Cena IV Além do que os olhos podem ver Sala de interrogatório do presídio ELE: (Sentado na sala esperando a visita enquanto assovia Patience do Guns and Roses) Doce calmaria. (continua a assoviar até que a porta se abre) EU: (Entrando na sala) Olá. ELE: Olá. EU: (Aparentando nervosismo) Se importa se eu me sentar? ELE: É um país livre, fique a vontade, embora seja muito irônico falar de liberdade em um lugar como esse. EU: (Se sentando) Com licença. (Pequena pausa) EU: Então? ELE: Então. EU: O tempo está esfriando não é? ELE: Posso te fazer uma pergunta? EU: (Aparentemente receosa) Assim como o senhor disse a pouco, estamos num país livre, fique a vontade. ELE: Você não parece uma repórter, de todos que vieram me entrevistar você é a única que ficou tão ansiosa e tensa. EU: (Gaguejando) Bem... É que... Você entende não é?... É que eu... ELE: É a sua primeira vez? EU: Como? ELE: Sua primeira entrevista? EU: (Aliviada, como se houvesse encontrado a desculpa certa) A sim, claro, eu estou nesse veículo há pouco tempo e só fazia trabalhos internos, então surgiu à possibilidade e essa é a minha primeira matéria. ELE: Pra qual jornal você escreve? EU: (Gaguejando) Jornal?... Não... Não é jornal não... É... Uma rádio AM, acho que você não conhece. ELE: E cadê o seu gravador? EU: (Sensação de: "Ih, fudeu") Gravador? ELE: É gravador, aquele aparelho que grava sons ambientes e na maioria das vezes é usado por rádio jornalistas para gravar as entrevistas. EU: (Procurando estabanadamente na bolsa, retirando o celular) Encontrei. (Aperta algumas teclas e põe o aparelho na mesa) Pronto podemos começar. ELE: Tem certeza que gravar com o celular não vai afetar a qualidade do áudio? EU: Quem é a repórter aqui? ELE: A senhorita. EU: Isso mesmo. (Ambos se olham por aproximadamente um minuto em silêncio) EU: Então... ELE: Sim. (Pequena pausa) EU: Está... Tudo bem? ELE: Em que sentido? EU: Bem... Eu sei lá... No geral. ELE: Minha mãe sempre me disse que por mais que uma situação pareça ruim ou difícil eu sempre tenho que lembrar que essa situação poderia ser bem pior. EU: Você define a sua estada aqui como boa ou ruim? ELE: Nenhum dos dois, eu estou indiferente. (Pequena pausa) EU: Bem eu só consegui entender que pelo lado ruim você está preso, e qual seria um possível lado bom? ELE: Sinceramente eu não penso muito nisso, mas se fosse para escolher alguma coisa, talvez seja o fato de eu estar separado dos outros detentos. EU: Prisão especial? ELE: Exato. EU: Você prefere dessa forma? ELE: Prefiro, afinal eu evito causar transtornos entre os outros, pois alguns crimes são imperdoáveis, mesmo entre criminosos. EU: Se a justiça lá fora não faz a justiça daqui faz. ELE: Eu não teria definido melhor. (Pequena pausa) EU: (Depois de refletir durante a pausa) E qual foi crime que você cometeu? ELE: Há quanto tempo a senhorita mora aqui? EU: (Assustada) Moro aqui faz quatro meses, por quê? ELE: De todos os que vieram me entrevistar você é a única que me perguntou o que eu fiz. EU: Isso é errado? Eu fiz besteira? ELE: Todos sabem o que eu fiz. EU: (Agoniada) Me deixa fazer as coisas do meu jeito. ELE: (Sorriso rápido) Fique a vontade. EU: Porque você foi preso? ELE: (Calmamente) Matei a minha esposa e a minha filha. (Pequena pausa) EU: (Volta a perguntar extremamente desconfortável com a situação) E... Por que você as matou? ELE: (Respirando fundo) Descobri que a minha esposa cometia adultério, fiquei descontrolado e a matei asfixiada com o travesseiro, minha filha foi um caso acidental, ela tentou me impedir, eu a empurrei e ela acabou batendo a cabeça na quina da mesa. EU: Bem... Mas como você descobriu? ELE: Quer que eu faça um relatório completo? EU: Se preferir assim fique a vontade. ELE: A algum atrás eu recebi uns e-mails estranhos... EU: (Cortando) Que tipo de e-mails? ELE: Na época não fez diferença, as mensagens sempre vinham em branco e com um anexo e eu nunca abro um anexo se eu não sei de onde ou de quem vem o e-mail. EU: (Anotando) Certo. ELE: Os meses foram passando, os e-mails continuavam chegando e eu continuava ignorando. Até que uma tarde eu cheguei mais cedo em casa, verifiquei a caixa de correio e uma carta havia chegado para mim. EU: (Receosa) Que tipo de carta? ELE: Era um envelope marrom bem cheio e sem remetente, de inicio pensei que era um trote ou coisa parecida, mas daí percebi o carimbo do correio... EU: Era de fora? De outra cidade? ELE: De outro estado na verdade, e foi por isso que não joguei o envelope fora. Então pensei que se alguém teve o trabalho de me mandar uma carta de outro estado o mínimo que eu poderia fazer era ver o que tinha dentro. EU: Faz sentido, evita que o seu computador pegue um vírus. ELE: Como você sabe que a carta tem algo a ver com os e-mails? EU: (Acuada) Como? ELE: É como? EU: Eu... Eu deduzi... Quer dizer, não faria sentido você ter mencionado os e-mails se eles não tivessem uma ligação com a carta. Até eu recebo e-mails assim. ELE: É tem razão, desculpe. EU: Prossiga, por favor. ELE: Eu entrei em casa e sobre a mesa da cozinha abri o envelope e tirei todas as folhas, tinha aproximadamente umas treze folhas, era uma conversa de MSN entre a minha esposa e um rapaz. EU: O senhor conhecia esse rapaz? ELE: Não, essas coisas que outros homens fazem como monitorar o que as namoradas ou filhas ou esposas fazem na internet nunca foi importante pra mim. Sempre confiei nela. EU: E o que te levou a ler? Por que nada te impedia de jogar as folhas fora e levar a sua vida pra frente. ELE: Não sei explicar, é como se uma voz na minha cabeça me dissesse que eu devia ler. (Pequena pausa) ELE: Bem... Não acreditei no que eu estava lendo, não por saber a informação que continha nas conversas, mas sim pela sensação de estar conhecendo uma outra Beatriz. EU: Ela tinha um nome muito bonito, sempre pensei que se eu tivesse uma filha o nome dela seria Ana Beatriz. ELE: Esse era o nome da minha filha. EU: Sério? ELE: Sério, se tem uma coisa pela qual me apaixonei nessa vida foi por esse nome. EU: Desculpa, acabei mudando de assunto. ELE: Sem problema. Continuando... (Pigarro) Naquela noite eu não dormi e três perguntas se repetiam na minha cabeça: "O que foi que eu fiz?" "Com quantos ela já me enganou?" "Tudo o que eu fiz e o que eu faço não é suficiente?" Uma semana depois eu já tentava esquecer, e posso dizer que estava quase conseguindo. Então um dia eu estava indo para o escritório e fiquei passando aquelas treze folhas na minha mente, lembrando das características de escrita, dos trejeitos e de todas as coisas que ela falava pra mim e que também eram usadas com aquele rapaz. Abri minha pasta de e-mails e tive acesso ao acervo completo das conversas entre os dois... Todos os meus temores se confirmaram... Então... EU: Esse foi o dia do crime? ELE: Foi... Cheguei em casa, Ana Beatriz estava no quarto brincando com o cachorro, entrei na suíte, a Beatriz tinha acabado de sair do banho e secava os cabelos com a toalha, ela se virou me deu um sorriso e veio em minha direção para me dar um beijo... Antes que ela tivesse dado mais um passo eu a derrubei com um tapa ao lado da cama... Ana Beatriz ouviu o grito, entrou na suíte e me viu comprimir minhas mãos sobre o travesseiro de penas de ganso sobre o rosto da Beatriz... Só me lembro das mãozinhas dela puxando o meu pescoço... Na fúria eu joguei ela com força...(Com pesar) A cabecinha dela bateu contra a quina do meu criado mudo... Acho que a filha morreu antes que a mãe, levou alguns segundos para a Beatriz parar de se mexer. EU: Asfixia e traumatismo craniano? ELE: Exatamente EU: (Levemente afetada pelo discurso) E o que você fez depois do crime, fugiu? ELE: Em alguns casos isso é um tanto previsível não é? EU: É sim, mas você não respondeu a pergunta. ELE: Não, por incrível que pareça eu não fugi, e ainda mais incrível foi o fato de eu ter chamado a polícia. EU: Por que chamou a polícia? ELE: Eu sempre fui muito conservador e cheio de princípios, e acredito que quando cometemos um crime devemos paga-lo. Por isso me entreguei e por isso estou aqui. EU: Quando a sua sentença foi divulgada? ELE: Faz uns dois meses. EU: Quantos anos de prisão? ELE: Trinta e oito anos de prisão em regime fechado. EU: (Esperançosa) Em quantos anos pode sair uma condicional? ELE: Eu sou réu primário e réu confesso então essa condicional pode sair em uns dois anos, mas não pretendo recorrer à condicional. EU: Por quê? ELE: Já respondi, vou pagar pelos meus crimes integralmente. (Pequena pausa) EU: Bem... Eu acho que é só isso. ELE: Foi o suficiente? EU: (Se levantando estabanadamente) Foi sim (Pega tudo o que deixou em cima da mesa no inicio da cena, exceto o celular). Obrigada pela entrevista, sinto muito pelo o que aconteceu e espero que a sua estada aqui seja a melhor possível. ELE: Vou entender isso com a melhor das intenções. EU: OK... Adeus (Se retirando da sala). ELE: Não esqueça seu celular. EU: (Voltando atrás) A sim, pessoa distraída é uma problema (Prestes a sair). ELE: Pessoas distraídas se entregam com mais facilidade. EU: (Para antes de girar a maçaneta) Sou tão transparente assim? ELE: Mais do que imagina. (Pequena pausa) EU: (Desmontando o personagem) Quanto tempo dura a visita? É que eu não quero ser escorraçada daqui. ELE: Minhas visitas não têm limite de tempo. EU: Privilégio da prisão especial? ELE: Não, mas sim uma forma de manter o controle aqui dentro, assim eu fico o mínimo de tempo possível com os outros detentos. EU: Quando descobriu que era eu? ELE: No momento que disse que veio me entrevistar. EU: O que me entregou? ELE: Se eu for contar cada uma das bolas-fora ficaríamos aqui o dia inteiro. EU: Como jornalista sou uma ótima engenheira química. ELE: Ele te fez muito mal mesmo não é? EU: (Coloca a bolsa em cima da mesa e volta a sentar) Se a nossa relação fosse um mar de rosas eu e você não estaríamos tendo essa conversa. ELE: Você fez muito bem. EU: Com certeza as nossas concepções de certo e errado estão muito distorcidas uma da outra. ELE: Nem tanto, no seu lugar eu faria à mesma coisa. EU: Ás vezes o produto final das nossas ações nos destroem por dentro e é assim que eu estou me sentindo. (Em pé desabafando em gritos) Eu provoquei essa situação e por minha causa uma criança perdeu a vida, e agora você paga por um erro meu. ELE: Moça... Você tem noção do que realmente fez? EU: Matei a Beatriz e a Ana Beatriz. ELE: (Em pé batendo boca) Nada disso quem matou fui eu. EU: Querido, olhando por outro ângulo eu fui uma espécie de mandante, você apenas executou. ELE: Ó Deus... Nessa situação a senhorita está bem distante de ser a mandante, está mais para uma fonte ou um alcagüete. EU: (Se debulhando em lágrimas) Desculpa, mas a sensação que eu estou sentindo não me qualifica como uma... Uma... Qual a palavra que você disse agora pouco? ELE: Fonte? EU: Não fonte não, aquela outra mais difícil de falar. ELE: Alcagüete? EU: É isso mesmo, eu não sou apenas uma ALCAGÜETA! ELE: (Respirando fundo) Você apenas me informou o adultério da Beatriz. Matar minha esposa e minha filha foram opções minhas e não suas. (Pequena pausa) EU: (Enxugando as lágrimas) Por que eu escutei os outros? Não devia ter mandado a carta com as conversas pra você. ELE: E você preferia continuar se sentindo uma "corna"? Uma mulher que tem capacidade e beleza suficientes para conquistar quem quiser ia querer continuar com um homem que não te valoriza? EU: A dor de ser traída é muito melhor do que a culpa de ter minhas mãos manchadas com o sangue de uma criança inocente. ELE: E até quando a dor da traição iria te dilacerar? EU: (Choro seguido de grito mudo) Eu não sei, eu não sei... (Pequena pausa) ELE: Certos crimes são caros demais para serem pagos. EU: (Engolindo o choro e mais calma se levanta) Sempre vão existir pessoas dispostas a pagar esse preço. (Colocando a mão por baixo da saia e retirando uma navalha da roupa intima) ELE: O que é isso? EU: Uma navalha. ELE: Que é uma navalha eu sei, eu quero saber o porquê da navalha. EU: Pensei que nunca teria coragem de dizer isso... Mas depois de tudo o que conversamos tenho certeza absoluta de que não quero sair viva daqui. ELE: Não fala besteira. EU: Nunca estive tão certa de algo em toda a minha vida. ELE: Quer se matar se mata, mas não na minha frente, por favor. EU: Eu não vou me matar (Estendendo a mão), você vai. ELE: (Rindo ironicamente) E eu pensando que já tinha visto de tudo nessa vida. EU: Não coloquei uma navalha na minha genitália à toa, ou faz você... (Armando a navalha e levando-a até o pescoço) Ou faço eu. (Pequena pausa) ELE: (Se aproxima tomando a navalha em suas mãos) É isso o que quer? EU: (Com um nó na garganta e bastante receosa) Sim. ELE: (Pensando por um breve momento, coloca uma de suas mãos sobre a boca dela) Você vai morrer... (Levanta a navalha em posição de ataque) Mas não vai ser pelas minhas mãos. (Difere um golpe no braço dela e no momento em que a navalha lhe corta a carne a luz se apaga) OBS: (Em determinados momentos a cena será realizada em B.O. para simbolizar o que as pessoas do lado de fora da sala estão ouvindo e quando a luz azul surgir estará focando o que realmente está se passando) ELE: (B.O.) Eu vou te matar, (Barulho dos móveis se movendo) por que veio aqui sabendo que eu queria te ver morta e enterrada? EU: (Luz azul) O que você está fazendo? ELE: (Luz azul) Os guardas chamam isso de tentativa de assassinato (Chuta a cadeira para fazer mais barulho). EU: (Luz azul) Você devia me matar. (Dando socos no ombro dele). ELE: (Luz azul) Não vou, mas é isso que os guardas vão pensar. EU: (B.O.) Não! Seu maldito, desgraçado, não faz isso. ELE: (B.O.) Você devia saber que eu ia te receber assim (Mais barulho de mobília sendo empurrada) é por sua culpa que eu matei minha esposa, é por sua culpa que eu tenho minhas mãos manchadas com o sangue da minha filha. Você vai ter o mesmo fim ouviu bem? O MESMO FIM. EU: (B.O.) (A porta se abre para que os policiais a retirem do local) Esperem o que estão fazendo? Me deixem voltar, não terminei o que eu vim fazer, me deixem voltar, NÃO!!! (Pequena pausa) ELE: (A luz volta, está sentado sobre a mesa da sala de interrogatório com a navalha em mãos pingando sangue) É impossível matar quem já está morto (Volta a assoviar Patience do Guns and Roses). Fim da Cena V Epílogo Paciência amigos, quando você bate o dedo mindinho do pé no canto da mesa de centro da sala da casa da sua avó pode ter certeza, vai doer. Você vai querer encontrar a serra elétrica mais próxima pra transformar a maldita mesinha em serragem, mas paciência amigos, paciência. Pode doer hoje, mas amanhã não vai fazer a menor diferença. Pode até daqui algum tempo virar assunto na mesa do boteco sentado com os amigos: "Quem nunca esfolou o mindinho do pé num canto de mesa?" "Rapaz se eu te contar tomei uma pancada dessa outro dia na casa da minha avó." Paciência amigos, paciência. E pode ter certeza, essas mesinhas são sacanas, por incrível que pareça elas vão continuar se colocando no caminho do seu pobre mindinho outrora esfolado, vai sim. Mas não deixe a raiva acumular, tudo se resolve é só convencer a sua avó de que esse tipo de mesinha é uma velharia, sugira para ela comprar um daqueles puffs quadrados que estão na moda, são muito mais bonitinhos, servem como mesa, podem ser usados para sentar caso falte lugar no sofá e é 10 vezes mais seguro contra os pobres dedinhos mindinhos. Posso te mandar até um argumento para deixar seu pedido mais convincente: "Imagina se dedo mindinho do pé tivesse consciência, só o meu já teria sofrido inúmeros casos de amnésia e quem sabe um possível traumatismo craniano, vovozinha querida, a senhora quer que o meu dedo mindinho do pé morra prematuramente?" Paciência amigos, paciência. Parecem pequenas coisas? Parecem, mas pequenas coisas podem se tornar grandes e muito avassaladoras. Pare, respire, pense bem, conte até 10, coma uma fruta, passe uma tarde trancada (o) no seu quarto, no escuro comendo chocolate enquanto abraça ao seu ursinho de pelúcia se necessário, faça qualquer coisa, mas não seja vitima de seus problemas, você deve dominá-los e não o contrário. Por isso eu peço e continuo pedindo: "Paciência amigos, paciência." Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Qua, 28 de Janeiro de 2009 11:27 |
