A natureza humana anseia por algo que não pode ser suprido por prazeres carnais comuns. Se o espírito continua vivo depois da morte do corpo, isso é algo sobre o qual não falaremos agora. Falemos sobre o que acontece ao homem enquanto seu corpo vive. Nunca ninguém volta da morte para nos dizer o que acontece depois dela. Somente no período em que se vive é cada pessoa pode realmente definir o que estará escrito em sua lápide, e é isso o que deixamos para a posterioridade. O final definitivo é algo natural e cada vez mais iminente. É estúpido temer por isso. Dizer que o mundo é uma merda é apenas constatar um triste fato, tão antigo quanto o próprio mundo. Sempre foi dessa forma. A humanidade nunca vai aproveitar os séculos passados para tirar deles alguma lição que a faça trilhar caminhos menos penosos e um pouco mais iluminados. Ela vai cegamente trilhando o caminho das trevas, fazendo com que o termo 'ser humano' soe cada vez mais pejorativo.
Evidentemente, é legítimo supor que com a morte algum tipo de alívio venha a compensar nossa existência caótica, onde não temos quase nenhum controle sobre a ação de outros humanos, e por mais fortes que sejamos, não estamos livres do constrangimento que nossos semelhantes insistem em nos proporcionar. Nem a fortuna e nem o reconhecimento em vida são suficientes para nos livrar disso. A população da Terra vai crescer mais, a sensação de claustrofobia vai se tornar cada vez mais insuportável e os humanos vão aprender a foder cada vez mais jovens, sem nunca aprender a pensar. A qualidade de vida da minoria pensante vai se deteriorando junto com a da grande massa anônima, e o que isso vai causar eu ainda não sei, mas é algo pelo qual espero há muito tempo. Alguma grande vingança está sendo tramada contra a grande massa anônima, e se eu ainda tenho alguma coisa por esperar é isso, e não o reino dos céus, ou a salvação por parte de Deus, ou o que quer que seja.
Os homens mais inteligentes da história eram ateus. Se Deus existe e nos quer ver agir com dignidade, porque nos coloca nessa situação?
Eu tenho um encosto quase implacável. Creio que a melhor maneira de começar a falar desse sujeito é dizendo que tenho alguma sorte em tê-lo como vizinho de minha antiga morada na Bela Vista, e não na Cracolândia, onde vivo atualmente com meus discos. Eu ainda não vivia no Centro quando o conheci, e por essa época, ele já estava lá, jogando sua dignidade e seus valores na vala. Ele sabe que atualmente eu vivo no lugar onde sua vida se perdeu. Vive querndo voltar lá comigo para se perder mais. Ele sempre volta, mas não comigo
Trata-se do ex-marido de uma amiga de infância, que a deixou alcoólatra e viciada em crack. Essa garota, J****, viveu apenas 31 anos, e foi por fim vitimada por uma pneumonia, tratada à base de várias pedras fumadas diariamente e noites dormidas em calçadas frias. Ela era um ano mais velha que eu, de modo que quando entramos na adolescência, eu podia ser considerado apenas um moleque tarado, enquanto ela era quase uma mulher de verdade. Nossa proximidade era possível pelo fato de termos gostos musicais parecidos, e em meados dos anos 80 ouvíamos as bandas inglesas da época, pelo menos as quais tínhamos acesso. Eu gravava fitas cassete para ela, a fim de que ela não me pedisse os discos emprestados.
Quando ela começou seu relacionamento com o sujeito que viria a ser meu encosto, os dois passavam pouquíssimo tempo pelas redondezas do prédio onde eu e J**** morávamos. Quando eu os via naquele período, no ano 2000 ou 2001, tinha a impressão de que estavam vivendo uma boa fase, se drogando moderadamente. Talvez abusando do sexo promíscuo, é verdade, mas tudo isso tendo como suporte o vigor da juventude. Eu o vi uma vez com uma camiseta do Mott the Hoople, e isso foi motivo de admiração da minha parte. Ele tinha feito a camiseta. Não existia na época camisetas do Mott the Hoople na Galeria do Rock. Eu o vi uma vez esperando pelo elevador no prédio, quando ainda não conversávamos, chapado, segurando um saquinho do Mc Donald's e com uma batata frita enfiada em cada narina. Já o tinha visto sóbrio um dia na Nove de Julho vestindo uma camiseta com os dizeres 'Vendo Sêmem'.
Meu encosto vai ser aqui chamado de encosto mesmo, para que não seja preciso dar-lhe um nome fictício. Conhecemo-nos melhor quando J**** começou a adoecer com mais frequência e com mais gravidade e buscar na casa de seus pais na Bela Vista alguma assistência. O encosto só lhe dava mesmo era coragem de se afundar nas drogas. J**** engravidou quatro vezes, sendo que em duas dessas vezes, deu ao mundo mais dois humanos, uma menino e uma menina. Separavam-se e voltavam, e J**** era quem mais causava transtornos aos vizinhos a a seus pais, por ser menos resistente ao poderio do crack e dos destilados ruins. O meu encosto sempre foi mais resistente. Ele ainda vive, e sempre que eu o encontro, fico com vontade de me transformar num dos gatos viralatas que nunca descem dos muros e telhados da Bela Vista. Ficam lá, vendo de cima a vida desgraçada das pessoas que lhes dão comida durante o dia. E eu estou lá embaixo e não consigo me desvincilhar com facilidade do meu encosto. É bem verdade que poderia me valer do recurso que nosso vizinhos de bairro sempre usaram, que é trata-lo como um fantasma sem nome.
'Ei, Beat, seu burguesão...Você não fala pros seus amigos jovens que você é o escritor que vive na Cracolândia? Você vai para a casa do seu pai comer e dormir e usar a internet? Vamos dar um rolezinho antes de eu ir embora..." Eis a frase com a qual geralmente sou saudado pelo meu encosto. Quando o encontro, depois de um choque de incredulidade inicial, acabo aproveitando da situação a meu modo. Ele serve de inspiração para meus pensamentos sobre o fato de minha vida não ser realmente tão dura. Eu sei que se eu pudesse escolher, acabaria não o encontrando nunca. Quando o vejo à noite e sozinho, ele geralmente está chapado. Se eu o evitar, minha vida vira uma novela para meu encosto e para alguns dos conhecidos do meu encosto que vivem nas redondezas. Isso não importa tanto, mas o fato é que eu não penso que ele realmente mereça esse tratamento mais do que as outras pessoas com as quais sou obrigado a lidar com mais frequência. Quando o encontro durante o dia, ele geralmente está sóbrio e na companhia dos filhos.
Houve uma noite em que eu estava ansioso por começar a escrever uma história menor que um romance e maior que um conto. Saí da estação de metrô e encontrei meu encosto quando já estava a menos de 200 metros da entrada de meu prédio. Um dia antes, Lux Interior, eterno vocalista do Cramps, morria nos Estados Unidos. Meus planos de escrever algo naquela noite foram para o espaço, trocados por andanças na Bela Vista antes do meu encosto ficar realmente cansado e ir pegar o ônibus que o leva à zona oeste, onde vive com seu filho. Sua filha vive com a sogra dele, e nessa noite o encontrei quando ele saía do prédio depois de visitar a menina, e 'vamos ali no ponto de ônibus cerrar um cigarro e depois matar essa ponta que tenho aqui...', e então minha meia já estava enxarcada, pois tinha chovido muito desde a tarde.
Ele estava chapado, tinha brigado com a sogra, e queixava-se de que ela escondia a filha dele quando ele chegava. O clichê dos sonhos dos escritores pretensamente marginais que falam que gostam de andar na Amaral Gurgel (esses caras geralmente moram em Pinheiros ou na Vila Madalena) e inventar personagens sujos para suas histórias estéreis. Eu geralmente dou sorte pelo fato de que muito raramente encontro meu encosto dentro do prédio. Geralmente isso acontece nas imediações do edifício. O que há de curioso nesse sujeito é que ele também foi um escritor, e vivia uma vida maldita, e ao invés de explorar esses temas já tão batidos, tinha influência mesmo era do velho Fitzgerald, que pelo que consta era um cara muito engraçado, além de grande escritor.
Li alguns escritos do meu encosto, e ali havia um certo brilho, um certo talento, um respeito pela arte. Consciente ou inconscientemente, ele parecia aceitar o fato de que além da natureza, a arte é a única coisa que sobrevive no mundo. Parecia saber criar algo de novo sobre os alicerces do que foi feito antes. Fui saber por ele, sem que fosse necessário perguntar-lhe, que ele começou a escrever contos para que J**** desistisse de escrever poesias. Ele tinha esperanças de que com seus textos, ela aprendesse a escrever, ou desistisse definitivamente disso. Meu encosto cogitava até tentar uma carreira literária, com J**** se encarregando da parte operacional da vida, arrumando um emprego comum, indo ao banco e ao supermercado, enquanto ele escrevesse e procurasse algum editor. Esse projeto foi abortado para que ambos se dedicassem ao crack com todas suas forças.
Meu encosto ainda teve um trabalho relacionado à literatura, numa época em que roubava livros nas lojas grandes da Paulista e os vendia em sebos, ou para pessoas conhecidas. Numa ocasião, meu encosto trocou comigo uma bela edição de Ulisses por uma blusa de moletom gasta. De qualquer forma, o sucesso para alguém que quer viver das letras é altamente improvável, e como nas outras áreas, um eventual sucesso deve ao mesmo tempo ser resultado de um trabalho árduo e alguma sorte. E uma vez alcançado, esse sucesso pode revelar fraquezas. Ele não lutou o bastante pelo sucesso, e suas fraquezas revelaram-se devastadoras. Não foram as críticas negativas que o fizeram desistir. Não foram as pressões financeiras que o escritor geralmente sofre. A pressão financeira que ele sofria vinha por conta de sua abstinência de crack. Gostava de beber também, o que quer que fosse.
Nunca bebi com meu encosto. Num determinado momento de minha vida precisei controlar minha paixão pelo álcool, e devo dizer que não beber durante o começo da semana é um sacrifício, mas que tem valido à pena. Isso de uma certa forma cultiva essa minha paixão pela bebida, pois não fico mais bêbado o tempo todo, e quando o faço nos finais de semana, sinto grande prazer. Advogando em causa própria, devo dizer-lhes que meu fim de semana começa na quinta e termina no domingo.
Sinto prazer de me desvincilhar de meu encosto quando ele resolve voltar para sua casa, e geralmente me sobra tempo de pensar nos andarilhos amaldiçoados que ficam nas ruas quando chego em casa para dormir.
À sua maneira ele me tira do limbo moral, mergulhando fundo no mesmo. E me parece também que, à sua maneira, consegue se rebelar contra essa classe média oprimida por uma existência rotineira sem sentido algum. Ainda não achei a saída para tudo isso, nem acredito que haja essa saída.
Meu encosto ainda vive.
Evidentemente, é legítimo supor que com a morte algum tipo de alívio venha a compensar nossa existência caótica, onde não temos quase nenhum controle sobre a ação de outros humanos, e por mais fortes que sejamos, não estamos livres do constrangimento que nossos semelhantes insistem em nos proporcionar. Nem a fortuna e nem o reconhecimento em vida são suficientes para nos livrar disso. A população da Terra vai crescer mais, a sensação de claustrofobia vai se tornar cada vez mais insuportável e os humanos vão aprender a foder cada vez mais jovens, sem nunca aprender a pensar. A qualidade de vida da minoria pensante vai se deteriorando junto com a da grande massa anônima, e o que isso vai causar eu ainda não sei, mas é algo pelo qual espero há muito tempo. Alguma grande vingança está sendo tramada contra a grande massa anônima, e se eu ainda tenho alguma coisa por esperar é isso, e não o reino dos céus, ou a salvação por parte de Deus, ou o que quer que seja.
Os homens mais inteligentes da história eram ateus. Se Deus existe e nos quer ver agir com dignidade, porque nos coloca nessa situação?
Eu tenho um encosto quase implacável. Creio que a melhor maneira de começar a falar desse sujeito é dizendo que tenho alguma sorte em tê-lo como vizinho de minha antiga morada na Bela Vista, e não na Cracolândia, onde vivo atualmente com meus discos. Eu ainda não vivia no Centro quando o conheci, e por essa época, ele já estava lá, jogando sua dignidade e seus valores na vala. Ele sabe que atualmente eu vivo no lugar onde sua vida se perdeu. Vive querndo voltar lá comigo para se perder mais. Ele sempre volta, mas não comigo
Trata-se do ex-marido de uma amiga de infância, que a deixou alcoólatra e viciada em crack. Essa garota, J****, viveu apenas 31 anos, e foi por fim vitimada por uma pneumonia, tratada à base de várias pedras fumadas diariamente e noites dormidas em calçadas frias. Ela era um ano mais velha que eu, de modo que quando entramos na adolescência, eu podia ser considerado apenas um moleque tarado, enquanto ela era quase uma mulher de verdade. Nossa proximidade era possível pelo fato de termos gostos musicais parecidos, e em meados dos anos 80 ouvíamos as bandas inglesas da época, pelo menos as quais tínhamos acesso. Eu gravava fitas cassete para ela, a fim de que ela não me pedisse os discos emprestados.
Quando ela começou seu relacionamento com o sujeito que viria a ser meu encosto, os dois passavam pouquíssimo tempo pelas redondezas do prédio onde eu e J**** morávamos. Quando eu os via naquele período, no ano 2000 ou 2001, tinha a impressão de que estavam vivendo uma boa fase, se drogando moderadamente. Talvez abusando do sexo promíscuo, é verdade, mas tudo isso tendo como suporte o vigor da juventude. Eu o vi uma vez com uma camiseta do Mott the Hoople, e isso foi motivo de admiração da minha parte. Ele tinha feito a camiseta. Não existia na época camisetas do Mott the Hoople na Galeria do Rock. Eu o vi uma vez esperando pelo elevador no prédio, quando ainda não conversávamos, chapado, segurando um saquinho do Mc Donald's e com uma batata frita enfiada em cada narina. Já o tinha visto sóbrio um dia na Nove de Julho vestindo uma camiseta com os dizeres 'Vendo Sêmem'.
Meu encosto vai ser aqui chamado de encosto mesmo, para que não seja preciso dar-lhe um nome fictício. Conhecemo-nos melhor quando J**** começou a adoecer com mais frequência e com mais gravidade e buscar na casa de seus pais na Bela Vista alguma assistência. O encosto só lhe dava mesmo era coragem de se afundar nas drogas. J**** engravidou quatro vezes, sendo que em duas dessas vezes, deu ao mundo mais dois humanos, uma menino e uma menina. Separavam-se e voltavam, e J**** era quem mais causava transtornos aos vizinhos a a seus pais, por ser menos resistente ao poderio do crack e dos destilados ruins. O meu encosto sempre foi mais resistente. Ele ainda vive, e sempre que eu o encontro, fico com vontade de me transformar num dos gatos viralatas que nunca descem dos muros e telhados da Bela Vista. Ficam lá, vendo de cima a vida desgraçada das pessoas que lhes dão comida durante o dia. E eu estou lá embaixo e não consigo me desvincilhar com facilidade do meu encosto. É bem verdade que poderia me valer do recurso que nosso vizinhos de bairro sempre usaram, que é trata-lo como um fantasma sem nome.
'Ei, Beat, seu burguesão...Você não fala pros seus amigos jovens que você é o escritor que vive na Cracolândia? Você vai para a casa do seu pai comer e dormir e usar a internet? Vamos dar um rolezinho antes de eu ir embora..." Eis a frase com a qual geralmente sou saudado pelo meu encosto. Quando o encontro, depois de um choque de incredulidade inicial, acabo aproveitando da situação a meu modo. Ele serve de inspiração para meus pensamentos sobre o fato de minha vida não ser realmente tão dura. Eu sei que se eu pudesse escolher, acabaria não o encontrando nunca. Quando o vejo à noite e sozinho, ele geralmente está chapado. Se eu o evitar, minha vida vira uma novela para meu encosto e para alguns dos conhecidos do meu encosto que vivem nas redondezas. Isso não importa tanto, mas o fato é que eu não penso que ele realmente mereça esse tratamento mais do que as outras pessoas com as quais sou obrigado a lidar com mais frequência. Quando o encontro durante o dia, ele geralmente está sóbrio e na companhia dos filhos.
Houve uma noite em que eu estava ansioso por começar a escrever uma história menor que um romance e maior que um conto. Saí da estação de metrô e encontrei meu encosto quando já estava a menos de 200 metros da entrada de meu prédio. Um dia antes, Lux Interior, eterno vocalista do Cramps, morria nos Estados Unidos. Meus planos de escrever algo naquela noite foram para o espaço, trocados por andanças na Bela Vista antes do meu encosto ficar realmente cansado e ir pegar o ônibus que o leva à zona oeste, onde vive com seu filho. Sua filha vive com a sogra dele, e nessa noite o encontrei quando ele saía do prédio depois de visitar a menina, e 'vamos ali no ponto de ônibus cerrar um cigarro e depois matar essa ponta que tenho aqui...', e então minha meia já estava enxarcada, pois tinha chovido muito desde a tarde.
Ele estava chapado, tinha brigado com a sogra, e queixava-se de que ela escondia a filha dele quando ele chegava. O clichê dos sonhos dos escritores pretensamente marginais que falam que gostam de andar na Amaral Gurgel (esses caras geralmente moram em Pinheiros ou na Vila Madalena) e inventar personagens sujos para suas histórias estéreis. Eu geralmente dou sorte pelo fato de que muito raramente encontro meu encosto dentro do prédio. Geralmente isso acontece nas imediações do edifício. O que há de curioso nesse sujeito é que ele também foi um escritor, e vivia uma vida maldita, e ao invés de explorar esses temas já tão batidos, tinha influência mesmo era do velho Fitzgerald, que pelo que consta era um cara muito engraçado, além de grande escritor.
Li alguns escritos do meu encosto, e ali havia um certo brilho, um certo talento, um respeito pela arte. Consciente ou inconscientemente, ele parecia aceitar o fato de que além da natureza, a arte é a única coisa que sobrevive no mundo. Parecia saber criar algo de novo sobre os alicerces do que foi feito antes. Fui saber por ele, sem que fosse necessário perguntar-lhe, que ele começou a escrever contos para que J**** desistisse de escrever poesias. Ele tinha esperanças de que com seus textos, ela aprendesse a escrever, ou desistisse definitivamente disso. Meu encosto cogitava até tentar uma carreira literária, com J**** se encarregando da parte operacional da vida, arrumando um emprego comum, indo ao banco e ao supermercado, enquanto ele escrevesse e procurasse algum editor. Esse projeto foi abortado para que ambos se dedicassem ao crack com todas suas forças.
Meu encosto ainda teve um trabalho relacionado à literatura, numa época em que roubava livros nas lojas grandes da Paulista e os vendia em sebos, ou para pessoas conhecidas. Numa ocasião, meu encosto trocou comigo uma bela edição de Ulisses por uma blusa de moletom gasta. De qualquer forma, o sucesso para alguém que quer viver das letras é altamente improvável, e como nas outras áreas, um eventual sucesso deve ao mesmo tempo ser resultado de um trabalho árduo e alguma sorte. E uma vez alcançado, esse sucesso pode revelar fraquezas. Ele não lutou o bastante pelo sucesso, e suas fraquezas revelaram-se devastadoras. Não foram as críticas negativas que o fizeram desistir. Não foram as pressões financeiras que o escritor geralmente sofre. A pressão financeira que ele sofria vinha por conta de sua abstinência de crack. Gostava de beber também, o que quer que fosse.
Nunca bebi com meu encosto. Num determinado momento de minha vida precisei controlar minha paixão pelo álcool, e devo dizer que não beber durante o começo da semana é um sacrifício, mas que tem valido à pena. Isso de uma certa forma cultiva essa minha paixão pela bebida, pois não fico mais bêbado o tempo todo, e quando o faço nos finais de semana, sinto grande prazer. Advogando em causa própria, devo dizer-lhes que meu fim de semana começa na quinta e termina no domingo.
Sinto prazer de me desvincilhar de meu encosto quando ele resolve voltar para sua casa, e geralmente me sobra tempo de pensar nos andarilhos amaldiçoados que ficam nas ruas quando chego em casa para dormir.
À sua maneira ele me tira do limbo moral, mergulhando fundo no mesmo. E me parece também que, à sua maneira, consegue se rebelar contra essa classe média oprimida por uma existência rotineira sem sentido algum. Ainda não achei a saída para tudo isso, nem acredito que haja essa saída.
Meu encosto ainda vive.
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