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Segunda, 06 Set 2010
Escrito por: Firmibri
Firmibri

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Fantasmas de carne - cap4

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No final da tarde, uma chuva assolou o estado. Nada de tão forte, mas o suficiente para alagar alguns pontos críticos da cidade. A dupla permaneceu dentro da loja de trajes de banho, refugiados mais dos safados andantes do que da água que caía incessantemente. Ainda tinha energia, mas seria insensato manter luzes acesas enquanto todos os outros estabelecimentos no entorno estavam as escuras. Ambos sentados em cadeiras de couro sintético fitando através da vitrine trincada a rua sem movimento algum. Foi o velho quem avistou primeiro. Uma sombra surgia em seu campo de visão se arrastando pelo canto do outro lado da rua. Leopoldo foi atraído mais pela reação do companheiro momentâneo. Um solitário.

— Esse aí vai para o inferno rapidinho. – decretou o velho se ajeitando pronto para o disparo.

— Deixe ele passar direto. – falou Leopoldo cansado de ver gente sendo morta ao seu redor. Uma coisa era ver os cadáveres nos caixões, outra era vê-los perdendo a vida bem a sua frente. – Contanto que ninguém nos veja...

— Se acha que vou perder a oportunidade de tirar um desses safados das ruas, está muito enganado. – o senhor olhava com raiva na direção de Leopoldo fazendo-o calar, porém algo o dizia que as coisas não iriam terminar bem.

Ajeitou a arma do jeito certo. Centrou a mira, não tinha como ele escapar da bala já na câmara pronta para o estrago. O dedo no gatilho estava firme, a pressão foi feita gradativamente, nada de pressa naquela hora, o estalo metálico seguido pelo estrondo do projétil varando a vitrine, que terminou de ir ao chão, acertando em cheio a lateral direita do andante jogando uma mistura vermelha na parede de uma padaria do outro lado da via. O “morto-vivo” cambaleou debilmente antes de desabar pesadamente no chão.

— É disso que eu estou falando.

O silêncio que deveria vir depois deu lugar a uma torrente de gritos. Leopoldo sentiu o calor abandonar seu corpo ao ver a horda saindo da mesma esquina do outro, pelo menos trinta correndo de forma alucinada vindo na direção da loja onde a dupla poderia ter ficado abrigada sem ser notada.

— Você é o maior filho da puta que eu conheci. – balbuciou o coveiro enquanto o velho carregava a espingarda com um ar de satisfação no rosto.

— Todos nós iremos morrer um dia, meu caro. Então se é para acontecer, que seja mandando uns safados para o inferno antes.

Apontou e mandou o primeiro tiro derrubando uma adolescente. Leopoldo não ficaria naquela loja. A premissa do homem mais parecia uma resolução de suicido. Correu para os fundos, sairia por uma janela ou por outra saída e que se danasse o idiota. Só pedia a Deus para os andantes permanecerem ocupados com o velho estúpido e esquecesse dele. Se isso fosse possível.

Leopoldo ouviu três disparos antes dos gritos carregados de xingamentos chegarem aos seus ouvidos. O coveiro percorria os corredores do pequeno estoque procurando por uma saída. Seus passos apressados ecoavam no salão diminuto e se os andantes tivessem um pouco da inteligência da vida, iriam perceber o fugitivo. Avistou uma porta no final do depósito. Estava trancada. Novamente uma torrente de medo tomou conta, podia se esconder entre as prateleiras e ficar quieto como fez no cemitério, mas e se os safados estivessem ficado mais espertos? Não podia arriscar, sua vida simples ainda tinha algum significado. Pegou a pistola, apontou na direção da porta, viu isso em filmes, só rezava para dar certo. Descarregou o tambor do trinta e oito, pedindo dessa vez que os tiros não falhassem, fazendo um buraco onde antes estava a fechadura da porta. Deu uma pesada desnecessária e ganhou uma faixa de terreno cheia de pedaços de papelão espalhados. Ouviu os grunhidos dos andantes, haviam percebido a movimentação, ouvido os disparos. Subiu num tambor de metal pulando para a rua sem se dar ao trabalho de olhar quem ou o quê estava zanzando pelas redondezas. Podia cair no meio de um grupo de andantes, mas a via estava vazia. Desatou a correr sem direção, queria era se afastar o mais rápido do local.

 

Não sabia o quanto correu, mas a julgar pelo estado precário de sua condição física, prometeu a si mesmo que se as coisas voltassem ao normal, o que ele duvidava, começaria a se exercitar. Estava tomando fôlego, olhou em volta, conhecia aquele lugar. Subiu o curto, porém exaustivo, lance de escadas de concreto alcançando um ponto de ônibus as margens da pista de subida da Avenida Brasil. Vislumbrou uma passarela sobre a principal via do Rio de Janeiro. Esperou ver algum carro, algum ônibus, uma Kombi caindo aos pedaços com suas buzinas chatas emitindo a alto som o destino da condução, mas nada subindo ou descendo. Pela primeira vez Leopoldo sentiu-se desolado. Das outras vezes, mesmo que sua consciência teimasse em alertar do contrário, o coveiro ainda tinha a esperança de ver alguma força de segurança ou da situação se resolver por ela mesma. Contudo, sentado no meio fio de uma avenida sempre movimentada completamente deserta, o tapa da certeza havia acertado-lhe a cara o despertando para uma realidade insana de que todo o conhecido tinha literalmente ido para o inferno.

Recomeçou a andar. Encontrar um morto-vivo pela frente não fazia a menor diferença. Ouviu um grito cortando a noite e como propositalmente, várias luzes da avenida se apagaram. Leopoldo caminhava pela calçada beirando o muro do quartel dos bombeiros. Olhava esperando ver algum homem de farda, um simples sinal de que havia mais gente consciente nesse mundo. Nada. O grito novamente, dessa vez mais perto e julgando pelo modo, teve certeza se tratar de um andante. Procurou vendo o safado debruçado em uma das janelas do conjunto de prédios de Guadalupe. O modo alucinado, os gritos de raiva, a falta de julgamento. Leopoldo parou para apreciar as reações incomuns da mulher gorda vestindo uma espécie de camisola branca repleta de manchas de sangue, mesmo a distância, conseguia ver os borrões escarlates. Era como se estivesse num jardim zoológico apreciando um leão rugindo. Ergueu o dedo médio. A mulher, reagindo a ofensa do coveiro ou por puro instinto inerente aos andantes, se atirou da janela. O homem ficou vendo o corpo grande da mulher desabando, sem que os gritos fossem interrompidos. O barulho da carne se espatifando no pátio do prédio ecoou pelo silêncio mórbido daquela parte sempre movimentada e barulhenta.

“Quando as coisas começaram a ir para o inferno”. Leopoldo pensava naquela frase dita pelo saudoso maluco da espingarda e matutava o quão ela poderia estar certa. Se estivesse vivendo o inferno na terra, como deveria ser o verdadeiro? Em seus anos trabalhando com os mortos, tendo sempre a derradeira hora como companheira, nunca parou para pensar a fundo nessas questões. Nunca fora uma pessoa religiosa, apesar de gostar de conversar com as mulheres membros da pastoral da esperança, em especial com a Dona Vitória, uma senhora de quarenta e poucos anos, mas que deveria dar um belo caldo. Esse era o típico pensamento que o levaria ao inferno. Ele riu alto. Era a única coisa que restava a fazer.

Na altura de Irajá. Um andante arrastava seu pé de forma débil. Um adolescente repleto de tatuagens, vestindo roupas negras e com cabelos longos negros escorridos e penteados para o lado. As correntes presas em suas calças denunciavam a presença além do chiado perturbador de sua respiração. O coveiro abaixou-se ao lado de um Vectra vinho com as portas abertas e cujo rádio ainda ligado deixava escapar o som da estática. Leopoldo temia que o barulho atraísse a atenção de safado e se isso acontecesse, só restaria correr novamente. Mas passou direto sem dispensar o menor olhar ao veículo. Respirou fundo mais uma vez. Aliviado e cansado daquela aventura insana pela rua. Ficou sentado no chão encostado na roda do carro esperando o surgimento de mais um desgraçado, mas o silêncio imperou novamente e Leopoldo recomeçou sua caminhada enfadonha, agora faltava pouco. Passava por uma casa de shows, cartazes anunciando apresentações que nunca chegariam a ser apreciadas. Quantos jovens esperavam pelos espetáculos. Quantos planos foram feitos e jogados para escanteio devido aos acontecimentos. O cara louco da espingarda estava coberto de razão, o mundo havia ido para o inferno. Definitivamente.



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Fantasmas de carne - cap4
Ter, 15 de Junho de 2010

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